Notas do Autor - Capítulo 7


Aí estamos! Duas semanas em sequência, quem diria? Claro, não ficaremos nesse ritmo para sempre, mas pelo menos as duas próximas estão garantidas. Acredito que o capítulo 9 fique pronto antes de ainda essa semana, mas mesmo que seja o caso eu não vou postá-lo imediatamente na semana seguinte ao 8. Vou abrir um intervalo de uma ou duas semanas para continuar produzindo com uma margem de segurança. As coisas estão indo bem, e nesse ritmo acredito que teremos mais capítulos prontos em breve, mas prefiro não arriscar a postar tudo e depois ficar sem nada guardado de novo.

Sobre o capítulo, nele nós pudemos notar uma espécie de teste classificatório para a batalha de ginásio. Isso foi inspirado no mangá Pokémon Adventures - Ruby & Sapphire, mas pretendo estender esse conceito para todos os ginásios (eu disse pretendo, mas sinceramente até agora só consegui pensar no desafio do Brawly). São pequenos testes prévios para medir o nível de preparação dos treinadores, e ver se eles estão aptos a enfrentar os líderes. Bem parecido com que vimos no anime na temporada das Ilhas Laranja também. Acho legal essas avaliações, pois conseguem medir se os desafiantes possuem os atributos necessários para se tornarem treinadores completos, e a cada ginásio vencido esses conhecimentos vão se acumulando. Dessa forma o ginásio deixa de ser apenas um "vou lá, batalho e venço para pegar a insígnia", e se torna algo mais elaborado.

Sapphire passou no teste de admissão, e vai poder enfrentar a Roxanne. Camila mostrou que também tem seus méritos, e o Ruby... Bom, deixa pra lá.

Espero que tenham passado um bom carnaval, e divirtam-se com a leitura.

Ah, e só mais uma coisa! Hoje, dia 17 de Fevereiro, a Aliança está completando 7 anos de existência! Eu e o Canas só nos tocamos nisso depois de um bom tempo conversando no Discord.

De qualquer forma ele fez um post muito daora a respeito, lá no blog de Sinnoh. Quem quiser dar uma lida, pode clicar aqui para ir direto ao post.

Acho que é isso por hoje. Até a próxima!

Capítulo 7

Teste de admissão


Ruby e Sapphire sentiam seus ouvidos arder com o barulho incessante das buzinas dos carros que congestionavam o trânsito do centro da cidade. Para Camila, aquele choque de realidade era menor, pois sua cidade natal, apesar de ser de médio porte, era movimentada em função do porto que tornava o local uma importante rota comercial. Aquele era quase um mundo diferente para os viajantes. Jamais haviam se deparado com uma cidade tão imensa, mas ao mesmo tempo que estavam espantados seus olhares eram de quem estava maravilhado com a cena.

Rustboro era a capital e maior cidade de Hoenn, mas certamente não tomava o termo "selva de concreto" para si. As ruas eram ornamentadas, as construções exuberantes e bem elaboradas com um estilo arquitetônico que só se via por ali, as pessoas saindo das lojas contentes, com inúmeras sacolas de compras nas mãos. Além de tudo isso, praças com monumentos históricos, teatros e anfiteatros, bibliotecas, museus e a imponente Academia Pokémon, uma escola de treinadores das mais renomadas do mundo. A cidade explodia cultura para qualquer lado que se olhasse, e imediatamente injetava na mente de Ruby e Sapphire a sensação de querer ficar lá para sempre.

— Vocês precisam ver é como isso aqui fica à noite! — disse um senhor de idade enquanto passava pelo trio, o que os deixou imaginando como idosos tinham mais facilidade para puxar assunto com qualquer pessoa.

— Ele provavelmente percebeu que não somos daqui... — observou Ruby, fazendo Sapphire cair na risada.

— Acho que ficou muito na cara mesmo. Estamos aqui como um bando de patetas só olhando pra todos os lados sem fazer nada.

— E então... — interrompeu Camila. — Não é melhor fazermos o check-in no Centro Pokémon logo?

O trio caminhou até o local, onde fizeram as reservas de quartos para que tivessem hospedagem durante toda a estadia na cidade. Camila aproveitou para realizar sua inscrição como competidora da Batalha da Fronteira, recebendo um guia melhor elaborado, com as informações a respeito das localizações de cada instalação, juntamente de uma espécie de cartão eletrônico para ser usado como um identificador da participante.

Passado algum tempo, por volta de uma hora, os três já tinham se estabelecido no quarto reservado, e por isso ficaram mais à vontade para voltar às ruas de Rustboro. Com mais calma podiam observar a beleza da cidade, ou pelo menos aquela área central onde se encontravam naquele momento. Sapphire então decidiu desdobrar um pedaço de papel que estava guardado em um de seus bolsos. Era um pequeno mapa da cidade que havia conseguido no Centro Pokémon, e poderia usá-lo para localizar o ginásio com mais facilidade. Queria logo marcar o seu primeiro desafio.

E assim ela seguiu pelas ruas, com Ruby e Camila andando logo atrás. Depois de alguns quarteirões, finalmente se deparou com o seu destino. Uma construção bem maior que as casas ao redor, porém com altura menor que os edifícios espalhados pelos quarteirões da cidade. Sua fachada se assemelhava a um museu, e de fato funcionava como tal, segundo informações que Sapphire lia no mapa que usava.


Sem hesitar, ela caminhou até a entrada do local, que era protegida por um porteiro e alguns seguranças que rondavam o pátio principal. O porteiro carregava consigo uma expressão cansada, enquanto lia um jornal sem sequer perceber a aproximação dos visitantes. 

— Oi, com licença... — Sapphire se colocou na ponta dos pés e acenou o braço levantado para ser percebida pelo homem, que estava no alto de uma guarita. 

— Não estamos recebendo visitas hoje — disse o porteiro, em tom seco. 

— Estou aqui para desafiar o líder do ginásio. Sou uma treinadora. 

O porteiro então abaixou o jornal para, enfim, fazer contato visual com os três. Ao olhar a cara de Sapphire ele arqueou uma das sobrancelhas, e com um tom de sarcasmo tratou de dar fim às pretensões da menina. 

— Que bonitinha. Você por acaso já realizou o teste de admissão? 

— Teste de admissão? 

— Sim, menininha. Roxanne só recebe desafiantes que passam em um processo seletivo realizado duas vezes por mês na Academia Pokémon. É um teste de conhecimentos básicos para treinadores que seleciona aqueles que têm o mínimo de preparo para enfrentar um líder de ginásio. Sabe como é, não podemos deixar qualquer um entrar aqui para batalhar. Quando era permitido, alguns saíam traumatizados... 

Sapphire engoliu seco ao ouvir a última frase. Ouvia muitas histórias de jovens treinadores sendo liquidados ao enfrentar o ginásio de Rustboro, mas sempre imaginou que fossem boatos. Logo em seguida pensou que o porteiro estivesse querendo lhe intimidar, e tentou relaxar. Porém, logo a enorme porta da frente se abriu, revelando uma mulher de cabelos castanhos que caminhava em direção à rua. Seus traços eram de uma moça jovem e seu olhar demonstrava que era uma pessoa séria, assim como as roupas que vestia, que eram parecidas com as de uma professora. Ela parou por um momento para falar com o porteiro.

— Estou indo.

— Claro, senhorita — cumprimentou o porteiro. — Tenha um ótimo dia. Espero vê-la novamente em breve.

A mulher já se preparava para virar as costas, porém notou a presença dos três jovens no local, e se deixou levar pela curiosidade.

— Vocês seriam desafiantes para o ginásio?

— Na verdade apenas eu — respondeu Sapphire, que logo apontou para o porteiro. — Mas ele me disse que é necessário prestar um exame de admissão antes.

— Sim, é verdade. Você deve ir até a recepção da Academia Pokémon, que fica a três quarteirões daqui, e lá fazer a inscrição para prestar a avaliação. Estou indo para lá agora, inclusive, para finalizar a preparação da prova.

O silêncio permaneceu no local. Os três ficaram surpresos com a coincidência de estarem de frente para uma das responsáveis por formular o exame que Sapphire teria que prestar.

— Só um momento — Ruby decidiu quebrar o silêncio. — Você então trabalha diretamente para o ginásio, e não só para o museu? Você tem contato com a tal líder Roxanne que esse homem citou?

A mulher não conseguiu conter um leve riso. Ela olhou para cada um dos três, ainda sorrindo, e respondeu prontamente.

— Sim, eu tenho. Se quiserem eu posso levá-los até a Academia para fazerem a inscrição. Podem pegar uma carona comigo.

Sendo assim os quatro entraram em um belo carro preto, que possuía um motorista particular ao volante. A mulher sentou-se no banco da frente, deixando os três sentados juntos na parte de trás do veículo. Assim que todos colocaram os cintos de segurança, o carro partiu a caminho da Academia. Enquanto as ruas se passavam no curto trajeto, Sapphire então resolveu matar sua curiosidade.

— Com licença — disse se dirigindo à mulher. — Que tipo de líder é a Roxanne?

A moça então parou por um momento, procurando palavras que pudessem descrever a futura rival da menina.

— O que posso dizer sobre a Roxanne é que ela é o tipo de pessoa que leva muito a sério tudo o que faz. Ela só permite passar por seus desafios aqueles que ela realmente tem a certeza de que aprenderam o que é importante. Seja como professora ou como líder de ginásio. Ela tende a admirar os desafiantes fortes, e também sabe reconhecer um treinador com potencial. Me diga, qual o seu nome?

— Me chamo Sapphire, e venho da cidade de Littleroot.

A mulher pareceu surpresa ao ouvir aquilo. Ela então virou-se para Sapphire com um olhar curioso.

— Você por acaso é filha do Professor Birch?

— Sim, eu sou — a menina riu levemente, enquanto coçava a parte de trás da cabeça. — Mas não posso afirmar que puxei esse lado intelectual dele. Eu gosto mais do ar livre do que ficar trancada em casa com livros. Mas consegui aprender algumas coisas ajudando meu pai com algumas pesquisas de campo.

— Entendo — a mulher agora esboçava um sorriso evidente. — Nesse caso, existe uma grande chance da Roxanne acabar gostando de você.

Após alguns minutos o carro parou bem em frente a Academia. Era uma construção bem diferente dos padrões de Rustboro. As paredes de concreto com formas clássicas esculpidas agora davam espaço à modernidade, tudo com um toque contemporâneo. A mulher parecia se divertir com as expressões de espanto de Sapphire, Ruby e Camila, que mal podiam acreditar que um prédio daqueles fora construído no tempo em que viviam.


— Chegamos. Esta é a Academia Pokémon de Rustboro, que tem como foco auxiliar a formação de grandes treinadores, criadores e pesquisadores Pokémon — dizia ao sair do carro junto com os três acompanhantes. — Sapphire, você poderá realizar a inscrição na recepção mesmo. Haverá uma pessoa para atendê-la com relação ao exame.

— Certo, vou agora mesmo.

— E vocês dois? — agora a mulher virou-se para Camila e Ruby. — Não pretendem fazer o exame também?

— Estamos apenas acompanhando a Sapphire. Eu sou coordenador — disse Ruby.

— E eu sou uma treinadora, mas não pretendo disputar a Liga esse ano — complementou Camila. — Vim para Hoenn por causa da Batalha da Fronteira.

— Entendo. Mesmo assim eu sugiro que façam a prova, só para testar seus conhecimentos mesmo. Vocês podem acabar aprendendo coisas importantes para o futuro.

Camila e Ruby trocaram olhares rapidamente, e depois pareceram concordar com a ideia.

— Nesse caso acho que vamos fazer a prova sim. Obrigado pela sugestão — disse Ruby sorrindo.

— Certo. Bom, eu tenho que ir agora. Estou indo para uma reunião. A prova será daqui a dois dias, mas como se trata de conhecimentos básicos vocês não deverão ter muito trabalho para se preparar. Desejo-lhes boa sorte, especialmente para você, Sapphire. Estarei no aguardo para ver suas habilidades quando for desafiar o ginásio.

A misteriosa mulher enfim entrou no local, enquanto o trio permaneceu no pátio principal encarando o prédio. Dos três, Sapphire era a quem parecia estar mais distante. Sua mente trabalhava a todo vapor com os mais variados pensamentos do que poderia acontecer a partir do momento em que ela cruzasse a porta de entrada. Era chegada a hora, logo a frente estava seu primeiro desafio para ingressar de vez na vida que ela mesma escolheu. Não podia voltar atrás.

A menina cerrou os punhos, e após uma respiração profunda começou a caminhar até a Academia. Ao passar pela entrada, acompanhada de Ruby e Camila, Sapphire andou até o balcão de recepção do lugar. O funcionário que os atendeu foi buscar os formulários para que eles preenchessem com as informações necessárias para a inscrição do exame. Ao final do processo, eles receberam um documento de comprovação, para ser exibido no exame, que seria realizado em dois dias a partir daquele momento, provando que eles eram candidatos.

Os três então saíram do prédio da Academia, e caminharam de volta à rua. Cada um guardou seu comprovante em suas respectivas mochilas, para que não houvesse o risco dos mesmos se perderem no caminho de volta ao Centro Pokémon.

— Acho que deveríamos estudar para nos prepararmos, não é? — Camila sugeriu.

— Sim! — Sapphire respondeu prontamente. — Eu não posso falhar nesse exame de maneira alguma!

• • •

Birch estava sentado em uma das mesas de seu laboratório, lendo um dos relatórios daquela semana entregues por um de seus assistentes. Ele já estava desligado do mundo exterior, quando foi despertado pelo som de batidas na porta. Ao abrir, surpreendeu-se ao dar de cara com Norman, que estava de passagem por Littleroot.

— Posso entrar? — perguntou o líder.

— Claro, à vontade! — Birch respondeu enquanto abria a porta para que o amigo pudesse passar.

— Resolvi aproveitar para ver um velho amigo. Como estão as coisas aqui no laboratório?

— Estão bem mais tranquilas depois que a Sapphire partiu, mas ela realmente faz falta — disse o pesquisador rindo. — Ela era muito útil com as pesquisas de campo, e pude avançar em várias teses por conta dela.

Norman caminhou até o sofá que ficava de frente para onde Birch estava sentado, e lá se acomodou. Parecia estar um pouco cansado, mas nada que um dia de folga não pudesse resolver.

— A minha casa também está um pouco estranha sem o Ruby. Às vezes consigo ouvir a voz dele me dizendo que algo lá está desorganizado. Essas crianças não nos deixam em paz nem quando estão longe. Onde será que eles estão agora?

— Dado o tempo que eles partiram, é possível que já estejam próximos a Rustboro, mas não tenho certeza. Tudo depende se o ritmo deles é mais rápido ou devagar.

A conversa parou por um momento, com os dois olhando fixamente para a parede. Estavam pensando no que o futuro poderia reservar para seus filhos, até que Norman quebrou o silêncio.

— Acha que eles podem chegar longe? — perguntou.

— Potencial eles têm, mas tudo vai depender da dedicação e do compromisso deles. Por mais talentosos que possam ser, eles não podem passar a vida toda achando que estão em um jogo de videogame ou algo do tipo. Mas eu acredito que eles já possuam essa mentalidade.

— Mudando de assunto, o que acha de passar lá em casa na sexta da semana que vem? — disse Norman. — Vamos assistir juntos o desafio do novo campeão da Liga contra a Elite. 

— Já que me convidou eu aceito. Estou precisando dar um descanso, tenho trabalhado sem parar nas últimas semanas. Ainda tenho que orientar alguns treinadores novos que estão chegando para buscar o primeiro Pokémon. 

— Fique tranquilo, lá em casa você poderá relaxar. Vou comprar algumas cervejas e deixá-las guardadas então. 

— Por favor, eu ia justamente pedir isso — Birch caiu na risada, em seguida tirando dinheiro do bolso e entregando a Norman. — Aqui está a minha parte. Se você vai me receber na sua casa, então me deixa pelo menos pagar uma parte. 

Norman aceitou o dinheiro, mesmo estando sem jeito, e logo tratou de se despedir do pesquisador. 

— Bem, eu preciso voltar para Petalburg. Não posso largar o ginásio por muito tempo, e também não quero atrapalhar o seu trabalho. Te espero na sexta então. Leve Cecilia. Helena tem trabalhado demais nos projetos dela. Tenho certeza de que vai adorar a visita. 

— Pode deixar — disse Birch ainda sentado, enquanto acenava para o amigo que partia. 

Após a saída de Norman, Birch ficou sentado por mais um tempo refletindo. 

— O desafio da Elite... Aquele garoto que venceu a última Liga é incrível. Será que algum dia a Sapphire conseguirá chegar tão longe?

• • •

Após dois dias se preparando para o exame Sapphire, Camila e Ruby chegam à Academia Pokémon. Era chegada a hora de colocar seus conhecimentos a prova, especialmente a primeira, que estava lá por precisar passar naquele teste para ter o direito de enfrentar Roxanne. 

Quando todos os candidatos estavam na sala esperando a prova começar, um dos instrutores chamou a atenção de todos para que pudesse explicar alguns detalhes do processo.

— Inicialmente eu gostaria de dar as boas vindas a todos os candidatos, e desde já os parabenizo pela iniciativa de tentar enfrentar o ginásio de Rustboro. O exame terá três horas de duração, e todas as questões são de múltipla escolha. O tema do exame, como já informado, é um conjunto de conhecimentos básicos essenciais para um treinador. Não podemos permitir que alguém vá disputar a Liga Pokémon sem saber a maioria dessas informações. Não preciso avisar a vocês que colas têm como consequência a eliminação imediata do candidato. Serão aprovados aqueles com nota igual ou superior a 7,0 de um total de 10,0 — ele então olhou para a porta da sala, e percebeu a presença de uma pessoa. — É só isso que tenho a dizer. Porém, antes de iniciarmos, vocês receberão algumas palavras da líder do ginásio de Rustboro, Roxanne. 

Da porta surgiu ninguém menos que a mulher que havia dado carona para Sapphire, Ruby e Camila no dia em que estiveram no ginásio, deixando os três pasmos com a situação. Ela notou a expressão dos três, sorriu e então caminhou até o local onde estavam os instrutores, se colocando a frente deles e voltada para os candidatos.

— Como líder do ginásio de Rustboro, gostaria de agradecer a todos os presentes por vir tentar o exame de admissão para desafiar o ginásio. É um ato, acima de tudo, de coragem e autoconfiança que todo treinador precisa ter, principalmente quando se tem um objetivo tão ambicioso quanto buscar uma vaga na Liga Pokémon. Tenho certeza que todos aqui se prepararam bastante, e estarei aguardando os aprovados para marcarmos a data das batalhas. Boa sorte a todos. 

Roxanne então saiu da sala, e a partir dali os instrutores começaram a distribuir as provas para que o exame tivesse início. Assim que o relógio da sala apontou o horário combinado para o início do exame o sinal foi dado para que os candidatos virassem suas provas e enfim começassem o teste. O barulho das provas sendo folheadas e algumas pontas de caneta já sendo arrastadas pelas folhas de papel já podia ser ouvido. No entanto, todos os presentes permaneciam em silêncio, o que ajudava a aumentar a tensão no local. 

Ao término do tempo limite, as provas foram sendo recolhidas pelos instrutores. Os candidatos permaneciam na sala, agora mais soltos, podendo ficar de pé para esticar as pernas e conversando entre si para tentar disfarçar a apreensão. 

Passaram-se quase duas horas. A impressão era a de que já estavam por uma eternidade naquele local. Todos aguardavam com ansiedade o resultado do exame de aptidão, e era impossível prever algum resultado. Por mais confiantes ou pessimistas que os candidatos pudessem estar, tudo ali não passava de puro achismo. Não dava para ter certeza de nada, e não existiam resultados improváveis, sejam positivos ou negativos. 

O instrutor então volta à sala onde o exame foi aplicado. Dentre os candidatos a desafiar o ginásio, várias expressões diferentes podiam ser vistas. Algumas confiantes, outras já pareciam ter desistido daquela tentativa. Apesar de não possuírem a mesma intenção, Ruby parecia tranquilo com o andamento da prova, enquanto Camila estava um pouco mais nervosa.

— Aqueles que tiraram a nota acima de 7,0 estão aptos a enfrentar o ginásio de Rustboro. Estes podem se dirigir à secretaria para retirar seus certificados, que deverão ser mostrados no local e dia da batalha. Quanto aos desclassificados, podem tentar novamente daqui a duas semanas. Até lá estudem bastante. A biblioteca da cidade está a disposição de vocês, e lá encontrarão material de estudo suficiente para se prepararem para o próximo exame. Agradecemos a participação de todos, e agora entregaremos seus resultados. 

O homem passava de mesa em mesa entregando os resultados aos candidatos, que um a um iam exibindo sorrisos ou olhares de reprovação. Assim que recebeu seu exame, Sapphire não deixou de esconder um sorriso vitorioso, e matou a curiosidade de seus amigos exibindo um belo 9,0. Camila então foi encoberta pela sombra do instrutor e gelou na mesma hora, porém foi surpreendida ao ver um 7,0 marcado em seu resultado. 

— Eu passei? — indagou, enquanto coçava os olhos a fim de certificar-se de que não estava sendo enganada por eles. — EU PASSEI, NÃO ACREDITO! 

— Acalme-se, Camila... — ia dizendo Sapphire, antes de ser interrompida pela garota. 

— Dra. Camila pra você! Eu sou uma pessoa altamente instruída. Meu nível acadêmico é reconhecido!

Faltava apenas Ruby. O garoto sorria orgulhoso, dando sinais de que confiava plenamente em suas capacidades. Desde pequeno devorava os incontáveis livros que seu pai possuía em casa. Conhecia os mais avançados termos técnicos e sabia tudo sobre treinamento e criação Pokémon. Ou melhor, quase tudo. 

Ao se deparar com sua nota sua expressão vitoriosa desabou em uma fração de segundos. 

— CINCO? — berrou o garoto, chamando a atenção dos presentes na sala. Ele logo se levantou e dirigiu sua palavra ao instrutor. — Com licença, eu acho que houve um erro no meu resultado! 

O instrutor pegou o exame das mãos de Ruby e começou a revisar a correção realizada pela Academia. Após alguns instantes o rapaz devolveu o exame ao garoto. 

— Sinto muito, mas a correção está correta. Este foi o seu resultado final. Se quiser tentar novamente, sugiro que estude mais um pouco.

"Estude mais um pouco". As últimas palavras do instrutor ecoavam na mente de Ruby. Aquele havia sido o golpe de misericórdia no orgulho do garoto, de forma que ele precisou ser carregado para fora da sala por Camila e Sapphire. Pouco tempo depois eles estavam sentados em um banco em uma das praças da cidade. Ruby ficava encarando a pequena fonte central jorrar água para cima de dentro de uma estátua de dois Barboachs entrelaçados. A expressão desiludida do garoto era visível, uma vez que não estava acostumado a fracassos, especialmente quando se tratava de seu nível de conhecimento sobre determinado assunto. 

— Ei, relaxa — disse Sapphire enquanto tocava o ombro de seu amigo, em uma tentativa de confortá-lo. — Nós sabemos que você é inteligente, e conhece bastante sobre Pokémons. 

— Então pode me explicar por que eu fui reprovado? — normalmente a fala seria pronunciada de forma mais ríspida, mas o desânimo de Ruby era tamanho que ele sequer conseguia alterar o tom de sua voz para um que não fosse o de total desinteresse naquela conversa.

— É porque você passou muito tempo lendo e pouco praticando — interveio Camila, atraindo a atenção do garoto. — Você precisa conviver mais com seus Pokémons, batalhar lado a lado com eles, interagir com eles. Falando sério, eu sequer sei quais são os Pokémons que você carrega consigo, não os vi uma única vez desde quando nos conhecemos. 

Ruby sabia que Camila tinha razão. Era um detalhe tão básico, tão óbvio, que ele não conseguia nem mesmo se perdoar por tê-lo deixado passar despercebido daquela maneira. Inclusive porque seu pai repetia essas mesmas palavras até a exaustão quando ia ensiná-lo algo novo. Mas só de pensar naquele Treecko mal-humorado Ruby já começava a entender que ele deixou esse detalhe escapar de propósito.

— No meu caso isso é um pouco mais complicado do que parece — resmungou o garoto.

— Não entendi — Camila fez uma expressão confusa.

— Camila, eu acho que sei o que está acontecendo — Sapphire interveio. — Ruby, se o problema está na personalidade do seu Treecko, então você precisa se adaptar a ele. Tente dar a ele um pouco mais de liberdade, como eu fiz com o Torchic. Talvez isso ajude.

— Não sei, às vezes eu tenho a sensação de que ele vai sair da Pokéball à noite e me matar. Ele realmente não gosta de mim. 

— Queria que ele já viesse te amando? — perguntou Camila. — Nem com outras pessoas as coisas funcionam desse jeito. Você precisa conquistar a confiança dele. Mostre que você o escuta, e com o tempo as razões do comportamento do seu Treecko vão aparecer.

— Como posso fazer isso? 

— Eu vou te ajudar batalhando com você, pois assim eu posso analisar o Treecko. Mas não agora. Daqui até o dia da batalha contra a Roxanne eu estarei ajudando a Sapphire a se preparar. Mas logo que ela terminar a batalha nós vamos dar um jeito na sua relação com o seu Pokémon.

Ruby abriu um sorriso tímido. Ele não sabia como seria esse teste, tampouco como o seu Treecko reagiria a isso. Mas Camila era mais experiente que ele, e de certa forma passava mais segurança ao dizer que ia ajudá-lo. 

— Tudo bem então, temos um acordo.

Os três chegaram ao Centro Pokémon ao final do dia para poder descansar. Assim que alcançaram a recepção, Sapphire foi notificada de que sua batalha contra Roxanne havia sido marcada para acontecer em quatro dias. Seria um período importante para se preparar para o desafio, então ela tratou logo de subir para o quarto e recuperar as energias. Ruby chegou a sugerir que fossem a um dos cafés da cidade para relaxarem, mas a garota parecia levar a sério o que estava por vir. E deveria.

— Não vale a pena focar somente nos ginásios, você tem que sair e relaxar um pouco — disse Ruby, mostrando certa preocupação. 

— Preciso me concentrar agora, senão eu vou acabar não conseguindo treinar bem — Sapphire respondeu enquanto se sentava na cama do quarto reservado e tirava a bolsa onde carregava seus itens. — Prometo que quando eu resolver o meu desafio no ginásio nós vamos sair para nos divertir um pouco.

Quem permanecia mais quieta naquele momento era Camila, o que era algo raro. Ela estava sentada em uma cadeira, lendo alguns papéis usando a luz de um abajur, e parecia estar bastante concentrada.

— E você, o que está fazendo? — Sapphire ficou curiosa. — Não é normal você estar tão quieta assim. 

— Eu estava vendo os locais da Batalha da Fronteira. São sete edifícios ao todo. Um deles é perto daqui...

Camila apoiou as mãos na escrivaninha, e apoiou-se na mesma para levantar mais rápido. Então ela se virou para Sapphire.

— Parece que os próximos dias de treinamento não serão só pra você — Camila agora tinha um sorriso que demonstrava excitação, mas também um pouco de nervosismo. — E eu não vou poder pegar leve. 

— E quem disse que eu queria que você pegasse leve? — Sapphire se animou com a situação, pois se Camila ia batalhar sério então era sinal de que o treinamento seria produtivo.

Ruby mantinha um sorriso disfarçado ao ver as duas companheiras entusiasmadas, mas logo voltou à sua expressão de preocupação. Se perguntava se algum dia ele conseguiria carregar a mesma determinação e confiança de suas amigas, sentia que se não fizesse alguma coisa ele rapidamente ficaria para trás. Não queria ser apenas um coordenador normal. Queria se tornar o protagonista de sua própria história. E sabia que para alcançar isso precisaria trabalhar muito duro.

O tempo passava, e os primeiros desafios do trio de viajantes se aproximavam. Era hora de cada um esquecer um pouco o ar deslumbrante do início da jornada, e passar a focar em seus objetivos. Dali em diante eles estariam de frente para os obstáculos que determinariam se eles são capazes de continuar.

FIM DO CAPÍTULO 7


  

Notas do Autor - Capítulo 6


Caramba, eu me dei conta de que estava há muito tempo sem postar nada quando o leitor Dark Zoroark me deu parabéns por completar 1 ano e 5 dias desde o último capítulo. Mas o importante é que eu me animei novamente com a história, e se tudo der certo não teremos mais hiatos desse tipo. Como compensação eu já dou a garantia de capítulos para as próximas duas semanas (dias 16 e 23), e ao que tudo indica teremos também para o dia 02/03, o que fecharia 4 semanas seguidas (sério, eu não alcanço uma marca dessa desde a Hoenn antiga).

Capítulo 7 e especial do Gym Leader's Life (aquele mesmo de Sinnoh, explicarei os detalhes nas notas do primeiro capítulo) já prontos e revisados (Tsuki como sempre salvando a pátria), e o capítulo 8 se encaminhando para as últimas linhas — espero terminá-lo hoje ou amanhã. Já comecei a escrever o 9 também, e tenho ainda alguns posts de conteúdo para serem lançados a medida que os capítulos forem caminhando (estes não serão lançados agora, porque dependem dos capítulos futuros, então colocá-los antecipadamente poderia dar alguns spoilers).

Sobre o capítulo, ele já estava pronto desde setembro para ser sincero, mas eu não queria postá-lo isoladamente e depois largar vocês por um longo período sem nada novamente, então eu decidi concluir outros capítulos enquanto vou escrevendo novos. Assim, caso algum imprevisto aconteça, a gente tem uma quantidade de conteúdo de segurança, assim vocês leitores não saem mais prejudicados do que já foram. Peço desculpas mesmo.

Eu estava receoso durante a semana, achando que o capítulo estava pequeno. Até porque não tinha como ele ficar muito grande. Era um capítulo de ligação mesmo, que serviu para juntar a Camila com a nossa dupla de protagonistas que se juntaram lá no segundo capítulo ainda, e também para introduzir um novo membro na equipe da Sapphire — prestem atenção nesse Shroomish, porque esse personagem vai ter uma importante atuação no ginásio em Rustboro!

Voltando ao assunto, eu achei o capítulo um pouco pequeno, mas com o feedback positivo que recebi no primeiro dia eu já fico mais tranquilo. De qualquer forma, prometo que o 7 e o 8 estão maiores. Sério, o 7 eu quebrei o recorde de palavras escritas em um capítulo, e se tudo continuar nesse ritmo o 8 vai quebrar o recorde do próprio capítulo 7. Estou bastante empolgado com minha produtividade.

Como puderam perceber, voltei a usar o nick antigo. Vocês já devem estar passando raiva de cada hora me chamar por um nick diferente... Mas sei lá, agora que estou no caminho da produtividade eu me sinto revivendo aqueles tempos da Hoenn antiga, onde eu conseguia postar semanalmente, e acredito que a maioria até prefira me chamar de Shadow, até pelo tempo enorme que usei esse apelido. Mas fica a critério de vocês qual dos dois nicks vão utilizar. Responderei em ambos os casos.

Acho que é isso. As notas desse capítulo até que ficaram extensas. Me pergunto se alguém vai ter paciência pra ler tudo kkkkkkk

Obrigado pela atenção e pelo apoio de sempre, e até a próxima semana! õ/

Capítulo 6

O Bosque Petalburg


Camila passava com certa dificuldade entre os arbustos da mata fechada do Bosque de Petalburg. As plantas ao serem mexidas transmitiam para suas roupas a poeira da estrada de terra que grudava nelas. Já esteve em situação parecida quando tinha que caminhar pela Floresta de Viridian, mas ainda assim não deixava de ser irritante. Aos poucos já perdia a paciência.

O bosque dividia em duas a rota 104, responsável por ligar diretamente a cidade de Petalburg, que dava nome à mata, à Rustboro, capital e maior metrópole da região de Hoenn. Era nada menos que uma muralha de árvores que ficavam tão próximas umas das outras que a luz do sol mal tocava o chão dentro do território. Uma floresta densa, e com caminhos confusos que fariam qualquer treinador inexperiente se perder.

A menina caminhava a passos largos. Queria sair dali o mais rápido possível. Apesar de já não ser mais uma iniciante, não queria se dar o luxo de vagar por muito tempo naquele lugar, correndo o risco de se perder em uma área desconhecida, e que poderia abrigar alguns perigos como plantas venenosas e Pokémons selvagens de comportamento mais ríspido.

— Que droga! Desse jeito não vou chegar ao outro lado nunca! — resmungava enquanto revirava um mapa da região. — E essa porcaria não me mostra nenhuma trilha ou saída próxima! Eu vim enfrentar a Batalha da Fronteira e vou morrer antes de chegar à primeira arena! Daqui a 3 meses as autoridades vão encontrar um corpo em decomposição, e a autópsia vai mostrar que pertencia a uma garota burra cujo senso de localização é digno de pena! 

Visivelmente estressada, ela voltou sua visão para cima, tentando olhar por entre as copas das árvores. 

— OH, MÃE NATUREZA, ESPÍRITOS DA FLORESTA, CELEBI, QUEM QUER QUE SEJA! ME MATEM LOGO PRA ME LIVRAR DESSE PURGATÓRIO VERDE! 

Continuava andando, parecia completamente sem rumo e sem saber o que fazer. O tempo passava cada vez mais devagar, como se ela ficasse presa naquele momento, sem nenhuma perspectiva de mudar a situação. Foi então que escutou os arbustos se mexendo atrás de si, e então virou-se para verificar o que estava a espreita. Viu então que era um pequeno Zigzagoon que corria assustado.

Camila pensou por alguns instantes, até que resolveu averiguar o que estava acontecendo na direção oposta.

— Se eu continuar aqui, não vou conseguir encontrar a saída do bosque. Pode ser que lá eu consiga alguma pista de como ir embora daqui...

Assim que tirou as folhagens de frente de sua visão percebeu que um confronto estava ocorrendo logo em sua frente. Uma menina comandava um pequeno Torchic contra um Shroomish. Ela tinha dificuldade para alinhar-se ao seu parceiro, mas tentava de todas as formas possíveis colocar suas estratégias em prática. A resistência partia justamente da pequena criatura de fogo, que parecia não querer batalhar ou seguir as ordens, e isso tornava difícil uma batalha onde ele supostamente teria vantagem sobre o tipo de seu adversário.

Camila então posicionou-se atrás de uma árvore para não atrapalhar a treinadora e ficou observando o desfecho daquele confronto atentamente. Ela finalmente tinha a oportunidade de descobrir como era o estilo de batalha utilizado em Hoenn.

• • •

Um rapaz calmamente observava a cidade de Rustboro pela janela de uma das salas da Corporação Devon. Apesar de ser jovem, já era considerado uma figura importante na multinacional. Não por ser o filho do presidente e fundador, mas por realmente ter mostrado seu valor através de seus projetos. Começou de baixo, como qualquer outro, e conseguiu subir os degraus sem precisar se colocar na sombra de seu pai. Seus cabelos eram de cor azulada, coincidindo com a dos seus olhos estáticos, que pareciam admirar a gigante paisagem de concreto, mas que hora ou outra se perdiam em pensamentos dos mais variados tipos. 

Acima da mesa uma carta escrita a mão, com letras quase desenhadas e um papel elegante. Parecia um convite de casamento, mas na verdade era apenas uma carta comum enviada por alguém próximo. Toda vez que o jovem observava a carta um sorriso sereno se abria em seu rosto, mas por um momento seus devaneios foram interrompidos por uma breve batida na porta do escritório. 

— Senhor Steven, ela chegou — disse a recepcionista do andar, após abrir a porta e colocar apenas sua cabeça para dentro da sala. — Posso mandá-la entrar? 

— Sim Elisa, por favor. 

Pela porta passou uma mulher de aparentemente trinta anos de idade, vestida de maneira elegante e com um olhar sereno. Sua expressão era séria, mas não de uma maneira intimidadora. Pelo contrário, era o tipo de pessoa que, apesar da pouca idade, passava uma sensação de sabedoria imensa. 

— Cada vez mais me impressiono com sua pontualidade, Roxanne. Nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. 

— Acredito que pontualidade não deveria ser vista como uma virtude, mas sim como uma prática comum. Bem, antes de começarmos eu gostaria de parabenizá-lo pela conquista da Liga Pokémon. Vejo que se esforçou muito, e não é mais aquele garoto imaturo que eu enfrentei há exatamente um ano. 

— Obrigado. Muito dessa conquista eu devo ao que aprendi com você e os outros líderes. 

— E então? Quando você vai enfrentar a Elite? 

— Não faço ideia. Ainda estou aguardando o convite deles. Mas tudo indica que será em breve, visto que os ginásios já estão abrindo para receber os desafiantes da nova temporada. 

— Nem me fale — Roxanne soltou um suspiro. — Fico imaginando que tipo de talentos eu poderei presenciar este ano. 

— Tenho certeza que você vai encontrar algum desafiante interessante cedo ou tarde. Então, por que não se senta? 

Assim que a moça sentou-se em uma das cadeiras, Steven prontamente serviu um pouco do café que havia na sala. O rapaz era realmente bem receptivo, e apesar do sucesso prematuro não deixava de ter uma personalidade modesta. Roxanne compreendia muito bem aquilo, já que também vinha de uma família sem muitos luxos e conseguiu conquistar seu espaço com o próprio esforço. 

— Por que me chamou aqui? 

Steven então sentou-se recostado em sua cadeira e com os braços cruzados. Sua expressão agora era de alguém intrigado, o que despertou a curiosidade de Roxanne. Não era qualquer coisa que conseguia deixar o jovem executivo tão pensativo. 

— Você certamente está ciente do tremor que foi sentido nos arredores do Monte Chimney, estou certo? 

— Sim, e devo dizer que foi muito estranho. O Departamento de Geologia da cidade não detectou nenhuma movimentação nas placas tectônicas que abrisse precedentes para um terremoto ou mesmo para uma erupção vulcânica. 

— Está pensando o mesmo que eu? 

Roxanne bebeu um gole do café e calmamente colocou a xícara sobre a pequena mesa de canto que estava próxima. 

— Alguém está metendo o nariz onde não deve. 

— Exatamente. Por isso estou formando uma força-tarefa de especialistas para fazer uma rápida investigação no Monte Chimney. Desde geólogos a sismólogos, eu estou reunindo pessoas de conhecimentos notáveis, e por isso estou convidando você a liderar essa expedição. 

A mulher se assustou com o convite inesperado, ainda mais pelo fato de que o próprio Steven poderia exercer aquela tarefa facilmente. Os dois praticamente se igualavam em intelecto, e por isso na visão de Roxanne ela não seria necessária. Prevendo os questionamentos de sua convidada, o rapaz se prontificou a explicar a situação. 

— Como eu disse antes, estou na iminência de receber a chamada da Elite para o desafio final, e ao mesmo tempo estou atolado de serviços por conta de um projeto em desenvolvimento aqui na empresa, o qual estou chefiando. Acredito que você tem um faro muito melhor para coletar informações, e consegue identificar detalhes que eu não seria capaz. 

Roxanne queria aceitar o convite, mas assim como Steven ela possuía suas responsabilidades. Ela tentava visualizar seu calendário para encontrar alguma brecha, mas aparentemente os próximos dias seriam bem cheios. 

— Não posso largar a Academia. No momento lido com mais de uma turma, e isso sem contar que amanhã estou reabrindo o ginásio e já tenho um desafiante com hora marcada. Vai ser complicado. 

— Realmente acabei não pensando no seu lado. Peço desculpas. 

— Acho que ainda devo levar um mês até conseguir abrir espaço na minha rotina. 

— Para mim é mais que o suficiente. A equipe está em fase de organização. No momento estou escolhendo os membros ainda, e só depois pretendo traçar os planos de pesquisa para que possamos continuar com os estudos. Não se sinta pressionada, este é apenas um convite. A decisão é sua. 

Era difícil dizer não para alguém com uma aura tão serena. Roxanne observava o seu café fazendo pequenas ondas com o movimento da xícara, e aos poucos se deixava ser convencida por Steven. De certa forma já era uma vontade dela, visto que sua fixação por estudos era implacável. Mas sabia de suas responsabilidades, e por isso quando ouviu de seu conhecido que nada daquilo iria impactar seu dever como professora ou líder de ginásio ela se sentiu muito mais confiante para aceitar a oferta. 

— Tudo bem, nesse caso eu aceito o convite. Nessas próximas semanas será um pouco complicado para eu dar atenção às informações que você vai me mandar, mas farei o possível para conciliar tudo. 

— Fico muito feliz em ouvir isso, Roxanne — Steven se levantou de sua cadeira e prontamente cumprimentou a líder com um aperto de mão. — Sua ajuda realmente será preciosa nesses estudos. 

A líder então se despediu, e Steven sentou-se de novo. Satisfeito, colocou para si próprio mais uma xícara de café, e calmamente começou a olhar a papelada da empresa. Ao abrir a gaveta para pegar uma caneta, notou que havia correspondência dentro dela. Revirando as cartas pouco a pouco, se interessou logo por uma escrita em um papel preto e com letras brancas. O selo estampado na mesma de alguma forma lhe parecia familiar também. E foi então que ele se deu conta do que era, antes mesmo de verificar seu conteúdo. 

— Então já está na hora...

• • •

A Pokéball que antes oscilava de um lado para o outro finalmente havia cessado, sinal de que a tentativa foi bem sucedida. Sapphire caminhou até o dispositivo e o pegou do chão, mostrando um sorriso de satisfação com a sua primeira captura. Ruby observava curioso a cena, imaginando que tipo de reação poderia esperar daquele Shroomish quando saísse pela primeira vez. Tinha suas dúvidas se mostraria obediência, ainda mais depois da batalha que havia acabado de acontecer.

— Não acha que esse bicho pode acabar nos atacando quando sair da Pokéball?

— Uma hora vai ter que acontecer, e quanto mais cedo melhor — respondeu a menina. — Mas o importante mesmo é que já tenho mais um membro para a minha equipe, e como ouvi dizer que o ginásio de Rustboro se especializa no tipo pedra, um tipo planta será muito bem vindo.

— Sim, mas não pense que apenas a vantagem de tipos vai garantir a sua vitória contra um líder de ginásio — disse uma garota que repentinamente apareceu de trás das árvores. — Eles quase sempre possuem mecanismos para lidar com essas desvantagens, então se você não se cuidar vai acabar sendo derrotada do mesmo jeito.

Sapphire e Ruby trocaram olhares rapidamente, sem compreender o motivo pelo qual uma desconhecida chegou puxando conversa com eles no meio do bosque. Então, sem querer parecer mal educados, eles resolveram dar ideia à ela.

— Você é uma treinadora também? — Sapphire perguntou.

— Sim, mas não tenho intenção de competir na Liga. Estou aqui por causa da Batalha da Fronteira. Meu nome é Camila, e vim de Vermilion, região de Kanto.

Sapphire disfarçadamente olhou para Ruby, e cochichou no ouvido do amigo.

— Aí, é gringa igual a você... — disse, com um sorriso debochado.

— Cala a boca — Ruby resmungou de volta.

Mal terminaram de se falar e Camila já tomou as rédeas da conversa novamente.

— Gostei de vocês! Vou acompanhá-los.

— Assim, do nada? — questionou Ruby, meio desconfiado.

— Não. Na verdade estou perdida há horas aqui no bosque, e preciso de alguém que me tire daqui — Camila estava ajoelhada segurando as mãos de Ruby em pose de quem implorava por ajuda. — Você é o meu salvador? Mostre-me o caminho, mestre!

Ruby então chegou perto de Sapphire e cochichou no ouvido dela.

— É doida de pedra, igual a você...

— Agora é a minha vez de te mandar calar a boca?

Os três então passaram a andar juntos, o que trazia alívio a Camila, que finalmente encontraria a saída daquele bosque confuso. Ela misturava os mais variados assuntos, simplesmente não parava de falar. Sapphire e Ruby não conseguiam dizer nada com ela atropelando as próprias palavras, mas por incrível que pareça não se sentiam irritados com aquilo.

— Ela é bem comunicativa, não é mesmo? — indagou Sapphire, tendo logo em seguida uma resposta do garoto.

— As pessoas em Kanto costumam ser bem animadas. Deve ser coisa das cidades grandes. Em Johto as pessoas são mais calmas, já que é uma região praticamente toda rural.

Aos poucos a barreira de árvores começava a se abrir, e os antes raros raios de sol já começavam a aparecer com mais frequência, iluminando o caminho e ao mesmo tempo indicando a saída do bosque. Sapphire comemorava sua primeira captura como uma criança que acabou de ganhar um presente de Natal, enquanto Camila só agradecia por poder ver a luz do dia novamente. Ruby apenas ria com as reações das duas garotas, tentando entender como uma podia ter tanta energia e por que a outra fazia tanto drama.

Finalmente chegaram ao outro lado da Rota 104, e da saída do bosque já era possível ver alguns arranha-céus se erguendo no horizonte. Era um sinal de que o destino dos três estava próximo. Se apertassem mais um pouco os passos, poderiam chegar a Rustboro antes do anoitecer. Porém Sapphire não tinha pressa nenhuma em chegar logo. Ela então propôs que juntos acampassem na estrada naquela noite e Camila aceitou a sugestão, para completo desespero de Ruby.

Aproveitaram o que restava de luz do dia para procurar por árvores frutíferas, de onde tiraram algumas berries para não passarem fome durante a noite. Ao escurecer, a rota era tomada por uma brisa fresca, típica das noites de verão tão comuns em Hoenn. O luar iluminava a superfície do grande lago ali presente, e na ponte que ligava a estrada de terra ao outro lado era possível ver pessoas sentadas vislumbrando a vista, desde outros viajantes até casais de namorados, outra prova de que a cidade já não estava mais tão distante.

Resolveram acender uma fogueira. Não por causa de frio, já que era uma noite agradável, mas sim para sentarem-se ao redor dela e conversarem até que o sono chegasse.

Camila contava suas experiências como treinadora quando ainda estava em Kanto, mostrando que ela já era um pouco mais experiente do que aparentava, e os três compartilhavam seus sonhos para o futuro. A morena então se levantou, chamando a atenção de Ruby e Sapphire, e fez um pedido.

— Se não for incômodo, eu gostaria de acompanhar vocês daqui pra frente. Sinto que vou ver muitas coisas interessantes se seguirmos viagem juntos.

— Por mim tudo bem — respondeu Ruby. — Mas será que não vai atrapalhar o seu caminho? Você disse mais cedo que veio para enfrentar a Batalha da Fronteira, e as instalações deles têm locais muito particulares. Pode acabar não batendo com o nosso caminho.

— Eu dou meu jeito. Se consegui sair viva daquele bosque maldito, é porque eu tenho a sorte ao meu lado!

— Na verdade fomos nós que tiramos você de lá, esqueceu? — disse Sapphire, segurando o riso.

— Exatamente! Vocês dois são meus amuletos da sorte! — Camila agarrou cada um com um braço e os trouxe para junto de si. — Por isso não vou largar de vocês até que me transformem na Rainha do Universo! Eu vou governar essa bagaça toda!

— Eu tento imaginar que tipo de universo seria, mas sinceramente tenho medo... — sussurrou Ruby.

Ao fim de toda aquela conversa, os jovens viajantes apagaram a fogueira e então se puseram a dormir. O dia seguinte reservaria para todos eles uma nova experiência. Rustboro, a grande metrópole e capital da região de Hoenn, os aguardava. E com ela o primeiro grande desafio de Sapphire.

FIM DO CAPÍTULO 6


  

A Gym Leader's Life


Ser líder de um ginásio significa ocupar um cargo de respeito e confiança na comunidade da Liga Pokémon. É ser referência para que treinadores possam testar suas habilidades e provar que são aptos a competir em torneios oficiais. É ser sinônimo de competência, inteligência e trabalho duro. Um verdadeiro Às das batalhas.

Mas poucos se perguntam o que há por trás dessa vida de avaliador, o que há além desse ritual de entregar insígnias para os treinadores que passaram no teste. Mais ainda, como estes líderes chegaram ao cargo? Neste curto especial você poderá acompanhar a trajetória de cada um dos líderes de Hoenn até esse tão almejado cargo. O que os motivou? O que fizeram para chegar lá? Como adquiriram todo o conhecimento que possuem?

Você vai descobrir que essa estrada envolve muito mais obstáculos do que imagina!


Capítulo 1 - Roxanne (Disponível em 23/02/2018)


Notas do Autor - Capítulo 5


OLÁ, GENTE BONITA! *---*
Bom, sem enrolação por aqui, vamos aos pontos que eu quero destacar nos capítulos. Primeiramente vamos falar sobre essa primeira aparição da Team Magma. Eu vou ser bem sincero como fã da 3ª geração: o ponto fraco dela está nas equipes vilãs. Primeiro porque eu acho que os objetivos são muito... É, sei lá. Não me atraem, ou melhor, não me convencem de que eles são vilões. Como dito pela Zinnia, parecem mais um bando de lunáticos com objetivos que eles sequer raciocinam que a chance de dar errado é gigantesca. Ou seja, são apenas loucos querendo fazer uma baderna difícil de compreender. A complexidade de análise deles é tão grande que eu mesmo estou aqui dizendo coisas que muito provavelmente vocês não estão entendendo. Mas fazer o que? Vida que segue. Estou com algumas ideias para tentar mudar um pouco esse núcleo de vilões em AEH, mas para os que curtem a Team Magma e a Team Aqua eu garanto que eles não vão perder a essência. Então não precisam se preocupar quanto a isso.

Por fim temos a batalha entre o Dan e esse Taillow terrível que fica azucrinando a vida da pobre Sapphire. Vocês conseguem facilmente notar que eu mudei um pouco o estilo de batalha, e isso foi um dos fatores que mais contribuiu para o atraso na produção do capítulo. Eu tinha a vontade de fazer a batalha acontecer do POV dos Pokémons, e para que isso fosse possível eu precisaria cortar alguns fatores clássicos em fanfics de Pokémon que acabariam prejudicando a dinâmica desse tipo de cena: os grunhidos, que eu já não usava mais desde a AEH antiga, e também as falas dos treinadores dando as ordens. Aquela primeira da Sapphire mandando o Torchic usar o Ember foi apenas para fazer a transição de POV para que vocês não tivessem aquele choque ou até mesmo a confusão de saber sob qual perspectiva a história estava sendo contada a partir daquele ponto. Então deu pra manter as descrições normais que eu sempre fazia, só que sem essas duas coisas que eu citei. Até conversei bastante com o Canas sobre esse tipo de batalha, já que ele está bem mais familiarizado com esse estilo do que eu. Por isso essa batalha inicial foi pequena. Foi apenas um teste, então podem ser bem sinceros sobre o que acharam dela, para que eu possa analisar se há algo que possa ser corrigido ou melhorado futuramente. E se esse Taillow vai voltar... Bom, aí só conferindo para saber!

Acho que é isso. No mais, eu espero que todos tenham um ótimo ano de 2017. Sei que estou um pouco atrasado para dizer isso, mas como não nos vemos há um bom tempo eu só tive essa oportunidade agora.

Valeu, meu povo! õ/

Capítulo 5

Pequena grande tormenta


Zinnia caminhava a passos lentos pela encosta do Monte Chimney. Já fazia pouco mais de uma semana desde que ela deixou sua vila, objetivando não se envolver com as crenças de seu povo, e muito menos com a responsabilidade de ser a Guardiã do Conhecimento, responsável por passar às gerações posteriores as lendas e o folclore dos draconids. Após deixar seu lar, era notável o bom humor da garota, que agora tinha um enorme peso removido de suas costas. Nunca havia experimentado a liberdade antes, estando sempre à disposição de suas obrigações como herdeira do título de Guardiã, e agora finalmente poderia conhecer o mundo.

Aster caminhava ao lado de sua treinadora, que andava pelas estradas de terra olhando para cima, apreciando as nuvens como de costume. Foi então que a garota virou seu olhar para o lado, fitando diretamente o pico da enorme montanha. Um sorriso de canto se fez em Zinnia, como se uma ideia acabasse de surgir em sua cabeça.

— Aster, o que acha de explorarmos o topo daquela montanha? — indagou.

A pequena Whismur acenou de forma positiva, e assim a dupla de viajantes mudou sua rota para dentro da área do Monte Chimney.

Com o passar do tempo, a subida ficava cada vez mais lenta. O ar se tornava rarefeito, e a vegetação estranhamente parecia perder sua coloração viva, dando lugar a uma paisagem mórbida. Zinnia estava intrigada com aquele fenômeno, até que se deu conta de que ela estava no famoso vulcão adormecido da região de Hoenn, do qual só havia ouvido falar.

Continuava subindo, sem hesitar. Aster agora descansava pendurada em suas costas, já que não tinha forças para aguentar uma caminhada tão rigorosa. Depois de quase três horas, finalmente estavam no topo. Zinnia abriu os braços e respirou fundo, deixando que o vento gélido da altitude a tocasse de forma suave. Em seguida, começou a caminhar por lá, explorando cada canto daquele local exuberante e misterioso, onde poucos se atreviam a se aventurar.

Contemplava a vista magnífica que tinha para quase toda a região, desde a área montanhosa de Fallarbor, passando pelas praias de Slateport e indo até a vasta floresta que alojava a cidade de Fortree. Tantos lugares que nunca teve a chance de conhecer, mas que agora eram destinos certos para a nova exploradora. Aquela vista privilegiada inflava seu ego, fazendo com que se sentisse a dona daquele mundo.

Porém, a menina se assustou e rapidamente escondeu-se atrás de uma rocha ao ouvir o que pareciam ser passos humanos. Vários deles. Trajavam vestes rubras, todos encapuzados e com feições sérias em seus rostos. Não se sabia ao certo quem ou o que eram, mas pareciam ter ido àquele local com objetivos mais sérios que a draconid. Uma garota aparentando ter a mesma faixa de idade de Zinnia tomou a frente do grupo, e com um aparelho começou a fazer análises no local onde se encontravam.

— A atividade sísmica está baixa. O vulcão aparentemente está adormecido.

— Courtney, tem certeza de que as previsões estão corretas? — questionou um homem, se aproximando. — Tudo que tínhamos até aqui foram nada mais que suposições. Acho difícil de acreditar que o Monte Chimney despertaria de uma hora para a outra.

— Não estamos falando de uma simples atividade sísmica natural, Tabitha. Isso se trata de um poder oculto guardado há milênios logo abaixo de Hoenn, e que nenhum humano se atreveu a tentar descobrir o que era.

— E que poder seria este?

— O lendário ancião, Groudon — respondeu Courtney de forma séria. — Aquele que domina todas as terras. Um dos membros da tríade sagrada de nosso continente.

Zinnia, que ouvia atentamente a conversa, logo fez uma cara de desprezo. Antes interessada nos rumos da conversa, a garota pareceu se decepcionar ao ouvir o nome de uma criatura lendária, que ela acreditava ser apenas parte do folclore do continente.

— Tsc, lá vem... — sussurrou para si mesma. — Como se não bastasse a minha tribo, existem outros bandos de lunáticos espalhados pelo mundo. Eu vou dar o fora daqui, antes que eles me encontrem e comecem a ficar pregando pra cima de mim.

Assim que ameaçou dar o primeiro passo, um tremor quase imperceptível pôde ser sentido logo abaixo dos seus pés. Zinnia parou por um momento e instintivamente olhou para o chão, como se tentasse encontrar algo que poderia ter causado aquele fenômeno.

Em seguida, um abalo mais forte fez com que o grupo fosse ao chão, enquanto Zinnia se agarrou firme a uma pedra para manter o equilíbrio. Uma fissura surgiu revelando um enorme poço de lava vulcânica, e o barulho intenso do chão se abrindo soava como o rugido infernal de uma criatura das mais densas profundezas do solo.

Quando os tremores cessaram, os presentes na montanha restabeleceram o equilíbrio. Courtney aproximou-se vagarosamente da imensa cratera que havia aparecido, e assim que lançou seu olhar para dentro daquele abismo um sorriso vitorioso surgiu em sua face.

— O mestre precisa saber disso!

— Isso... Não pode ser real — murmurou Tabitha, incrédulo. — Esta pode ser a realização de todos os objetivos da Team Magma!

Zinnia contornou a cratera, procurando se distanciar dos outros para não ser notada. Quando alcançou determinado ponto, voltou-se para o mesmo local que os membros do estranho grupo, e olhou para dentro. Sua feição prontamente se alterou para um misto de incredulidade e medo. A draconid começou a suar frio, sem saber o que fazer naquele momento. Por um instante até pensou em voltar para casa, tamanho era o pavor daquela cena.

— O que raios está acontecendo aqui?

• • •

Ruby e Sapphire caminhavam tranquilamente pela Rota 102, e a cidade de Petalburg já estava a apenas alguns minutos de distância. A euforia dos jovens com o novo estilo de vida parecia interminável, e a cada passo dado era como se fosse o primeiro rumo ao futuro desconhecido.

Por um instante resolveram parar para um descanso. Algumas árvores frutíferas estavam por perto, e decidiram comer ali para economizar dinheiro quando chegassem à cidade. Sapphire havia prometido a si mesma que a partir do momento em que estivesse com o seu primeiro Pokémon ela não mais dependeria de comodidades, então passar em qualquer lugar para almoçar estava fora de cogitação, para desapontamento de Ruby.

— Você é uma sovina! — o garoto estava sentado em uma pedra, com o rosto sendo sustentado pelas duas mãos e apoiando-se nos joelhos. Suas bochechas cheias de ar tornavam mais engraçada a sua feição emburrada.

— O que aconteceu com o seu espírito aventureiro? — riu a menina. — Se está reclamando das berries estarem sujas, eu trouxe bastante água para lavá-las muito bem. Ou você acha que eu seria o tipo de pessoa que comeria poeira da estrada?

— Já deu! Para de falar e me passa essa fruta logo! — Ele então pegou com uma das mãos uma oran berry arremessada por Sapphire e começou a murmurar seu descontentamento enquanto mastigava. — Eu tenho que aturar isso agora... Que mal faria uma última refeição decente, se a gente vai passar os próximos meses andando no meio do mato? E minha casa é logo ali... A gente ia comer de graça!

Sapphire ria a cada chilique de seu novo parceiro de estrada. Ela se divertia ainda mais com a presença de outra pessoa durante as viagens, pois sentia que o tempo passava mais rápido, e teria alguém com quem poderia compartilhar todas as experiências que estavam por vir.

— Tudo bem, eu não vou te impedir. Se quiser voltar pro colo da mamãe, esta é sua última chance. Mas depois que sairmos de Petalburg não tem mais volta. 

Ruby engasgou ao ouvir aquele comentário. O garoto arqueou uma das sobrancelhas, e fitou Sapphire com um olhar mortal. 

— O que está insinuando? 

— Que você é um mimadinho — a menina colocou as duas mãos na cintura e se curvou de forma que sua cara debochada ficasse na altura dos olhos de Ruby. — Aposto que foi criado em apartamento. 

— Provocação barata não vai funcionar comigo, já vou avisando — Ruby tentava disfarçar o aborrecimento. 

Sapphire continuou rindo, mas virou-se de costas para Ruby e foi arrumar as coisas. Enquanto estava agachada organizando os objetos que carregava em sua mochila, ela sentiu algo bater em sua cabeça, causando uma dor desagradável. Após massagear o local atingido, a garota procurava pelo chão a sua volta o que poderia ter sido, até que se deparou com uma pequena pedra. A menina sentiu seu sangue ferver, pegou o objeto e se dirigiu até Ruby. 

— Então é assim que você responde a uma brincadeira? — perguntou, segurando a pedra em sua mão. — Eu achava que você fosse minimamente civilizado, a ponto de esperar que não fosse fazer uma coisa dessas!

— Do que está falando agora? — o garoto indagou, demonstrando estar confuso. 

— DISSO! — Sapphire então mostrou a pedra a Ruby. — Como você atira uma pedra na cabeça de outra pessoa? Perdeu o juízo? 

— Ei, espera um pouco! Eu não joguei nada em você! Não venha me acusar! 

— Estamos só nós dois aqui! Quem mais poderia ter feito isso? 

Bastou a pergunta de Sapphire para que outra pedra acertasse sua nuca. A garota olhou sem graça para Ruby, que agora a encarava com um sorriso cínico. 

— Acho que você tem um novo “amigo” — disse o menino, enfatizando a última palavra com certa ironia. 

Sapphire se virou para trás e viu um velho conhecido repousando nos galhos de uma árvore próxima. O mesmo mantinha um sorriso travesso, como se estivesse tentando provocar a menina.

— Era só o que me faltava... — sussurrou Sapphire, cerrando os punhos. — Ruby, parece que vamos ficar aqui por mais um tempinho. Isso vai demorar. 

— Como queira, senhorita — o garoto então foi se recostando no pé de outra árvore. — Vou tirar um cochilo enquanto você se resolve com seu amiguinho. 

Quem importunava Sapphire era ninguém menos que o Taillow que ela estava caçando pouco mais de duas semanas atrás, no dia em que conheceu Ruby. Ela se mantinha alerta para qualquer travessura do seu rival, mas sua vontade mesmo era de correr para cima dele como se não houvesse amanhã e esganá-lo até a morte para se vingar do constrangimento que ele havia feito a menina passar naquele dia. 

— Vou fazer você se arrepender de ter voltado até mim, seu pássaro estúpido! 

Uma Pokéball foi lançada por Sapphire, revelando seu Torchic. Se da primeira vez a menina estava sozinha, agora ela tinha um reforço para ajudá-la a vencer o seu adversário. 

— Ok Torchic, vamos ver do que você é capaz. Utilize o Ember

Ou pelo menos deveria ser assim... 

— O que houve? — indagou a menina, agora curiosa. — No nível em que você está eu tenho certeza que você sabe usar o Ember... 

Torchic então virou-se para Sapphire e soltou um suspiro, demonstrando claramente sua má vontade. 

— Acho que entendi qual é o problema — sussurrou em tom de descontentamento. 

Dan estava de frente para Sapphire, a encarando com desconfiança. O Taillow que estava do outro lado pareceu confuso sobre a situação que acabara de presenciar.

— Isso sim me impressionou — disse o pássaro. — Você não tem cara de quem faz o tipo "rebelde". O que foi? Está tendo problemas com sua treinadora? Precisa de um tempinho para discutir a relação?

— Não é da sua conta — Dan respondeu de maneira ríspida. — Além do mais, o tempo que você desperdiça tagarelando poderia ser melhor aproveitado caso você fosse embora, já que eu não tenho intenção de lutar.

— Você fala como se eu não pudesse contra você. Que hilário!

O diálogo entre os dois foi interrompido quando Sapphire chamou por Dan novamente.

— Eu estou tentando formar uma boa equipe — disse a menina. — Se não me ajudar a trazer o Taillow para nós, então vai sobrar mais trabalho para você fazer.

— Tsc, odeio admitir, mas ela está certa — murmurou Dan. — Não vou ficar fazendo trabalho escravo aqui sozinho.

— Agora sim as coisas estão ficando interessantes — comentou o Taillow com um sorriso.

Uma última troca de olhares entre os dois bastou para que Dan começasse a correr em direção ao seu oponente. Com um salto para se colocar a uma altura superior a do Taillow, ele desceu tentando golpeá-lo com as suas garras. Porém, o pássaro foi ágil em evadir o primeiro golpe, e o momento da queda do Torchic abriu a primeira brecha para que ele iniciasse o seu ataque. Bastou uma investida direta para que se aproximasse o suficiente para golpeá-lo com seu bico, o arremessando alguns metros para trás.

Após rolar no chão por alguns segundos Dan se reergueu, com uma expressão não muito amigável. Sapphire berrava palavras desconexas atrás de si, o que só lhe tirava a concentração. O Taillow ria da cena, percebendo claramente que estava lidando com amadores.

— Sério cara, o entrosamento de vocês é comovente!

— Cala a boca! — resmungou Dan, se levantando com dificuldades.

Taillow ainda observava a tentativa de seu adversário se manter concentrado, mas foi surpreendido por uma reação rápida de Dan, que soltou uma rajada de brasas em sua direção. Mesmo com dificuldade conseguiu desviar da maioria, mas acabou sendo atingido em uma das asas, e logo caiu no chão. Dan o prendeu pelo peito colocando uma de suas patas acima, como forma de dominá-lo para terminar o serviço.

— Xeque-mate. 

— Hoje não, meu chapa! 

Com uma de suas asas, o Taillow conseguiu jogar um amontoado de areia em cima de Dan, atrapalhando sua visão. Com dificuldades levantou voo até o galho de uma árvore próxima. Antes de fugir, porém, fez um último cumprimento. 

— Obrigado pela diversão, amigo! Espero que possamos resolver isso algum dia. Hasta la vista! 

Quando Dan terminou de tossir e conseguiu limpar sua visão, percebeu que o Taillow já havia ido embora, e junto de si só restava uma Sapphire sem reação, enquanto Ruby ria da mesma por ter fracassado em sua tentativa de captura. 

— Dane-se a garota! Da próxima vez vou derrotá-lo pela minha dignidade! — murmurou antes de, enfim, ser trazido de volta para sua Pokéball. 

• • • 

Um homem misterioso mantinha-se sentado à sua mesa enquanto revisava alguns documentos, até que a tranquilidade de sua sala foi rompida pelo barulho da porta se abrindo. De lá surgiu uma bela jovem, com um sorriso arrogante. Ela adentrou a sala com seu jeito único de caminhar, sedutor de maneira quase proposital, como se quisesse atrair a atenção de todos e tudo para seus incomparáveis atributos físicos. 

— Courtney? O que faz aqui tão rápido? — indagou o homem, ajeitando seus óculos para enxergar melhor a visitante. 

— Digamos que a expedição ao Monte Chimney não correu como o planejado, mas saiu melhor do que esperávamos — ela então jogou de maneira relaxada alguns papéis sobre a mesa. — Aqui está o relatório da operação. Acho que vai encontrar coisas interessantes aí dentro. 

O homem começou a ler calmamente, como era esperado de alguém cuja face já era marcada pelas leves rugas da meia-idade. Enquanto folheava sutilmente o relatório, Courtney aguardava pacientemente à frente da mesa, sem perder o sorriso vitorioso. Foi então que ela viu seu superior colocar os papéis sobre a mesa novamente e, com os cotovelos apoiados e as mãos entrelaçadas, esboçou um sorriso igualmente triunfante. 

— Você fez um excelente trabalho.

FIM DO CAPÍTULO 5


  

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